_Poucas palavras nos remetem a uma variedade tão grande de coisas como “problema”, esse pequeno emaranhado de letras propõem desde dúvida, mistério, algo passível a solução, enigma, até uma patologia, esse entendimento principalmente no linguajar popular, no senso comum. O mais interessante sobre esse vocábulo é sua inerência a diversas áreas do comportamento humano, tanto que, de uma forma ou de outra, estaria ligado a própria natureza das relações humanas. E toda vontade pessoal, entenda aqui diversos conceitos filosóficos e populares, sujeita ao diálogo com essas pequenas desventuras do cotidiano.
_Enfim, você pode conhecer centenas de pessoas com problemas econômicos, algumas dezenas com problemas familiares, alguns tantos outros com pequenos problemas, mas que ainda possuem. Tanto que, uma pessoa sem problemas, sem mistério, beira o absurdo! Até porque tal sujeito só poderia existir em um completo estado de inércia, ponderando que em pouco tempo com a interação social e as condições socialmente impostas, ou biologicamente, ou outros fatores como as experiências espirituais e existenciais, iriam criar-se problemas!
_A pessoa pode até encarar o problema como um produto da criação humana, e num estado digno pensar, “eu não tenho problemas, eles são invenções, o que tenho são outras coisas pequenas e pouco expressivas, ou então, problemas são bons, pois me permitem fazer algo útil no dia-a-dia solucionando-os”. Nota-se que numa avaliação racional do cotidiano, a vida social do individuo lhe traz questões que precisam ser resolvidas, estas que não deixam de ser problemas, o modo de pensar na relação é que muda.
_Considerando isso para falar em estados utópicos, qualquer que seja, desde da Utopia de Thomas More, até outros estados imaginados, marxistas, anarquistas, um item importante do discurso que deveria ser questionado é: como tais sistemas políticos e sociais idealizados lidam com as ínfimas nuances humanas que causam constrangimentos na rotina das pessoas, e se esses se consolidariam sobre essas. Sendo assim, se os fulanos que iriam viver nesses sistemas pensariam sua relação com os problemas do cotidiano de modo positivo, ou seriam tomados por algum tipo de melancolia. Afinal, já sabemos do que é capaz um individuo enraivado, entristecido, a história nos mostrou isso diversas vezes, seja no assassinato de presidentes, seqüestros, bombas, desobediência civil, entre outras coisas.
_Nesse sentindo é inquestionável como o capitalismo se assentou na lógica dos problemas, para alem do materialismo, ele provêem as pessoas de conflitos pessoais, ao mesmo tempo em que fornece os meios sucintos para resolver e descreve como é bom o sucesso. No livro o Apocalipse Motorizado de Ned Ludd (Organizador) que debate sobre a tirania do automóvel, há um pequeno quadrinho que serve como ponto-chave para essa discussão, um homem sentando ao volante de seu carro reclama a seu colega passageiro –Eu odeio dirigir, mas preciso do carro para chegar ao trabalho. No quadrinho seguinte ele explicita ao mesmo companheiro o motivo pelo qual dirige, -Eu odeio meu trabalho, mas tenho que pagar as despesas com o carro.
_Seguindo o pensamento numa apreciação rápida para validar o parâmetro mencionado, o bem acertado dito-cujo possuidor de diversos bens, ao mostrar-se uma pessoa capacitada e rica pela sociedade por meio de suas ações, como passear de carro importado, estaria de forma irrevogável gritando para todos -não tenho problemas econômicos, na jogatina da sociedade capitalista sou o mais equilibrado, olhem minha felicidade.
_O capitalismo mais do que qualquer outro sistema criado pelo homem, soube aproveitar bem a brecha dada por esses quebra-cabeças, da vida diária, digamos assim, que são fornecidos pela interação social, pelo envelhecimento, existência, fé e religião, etc. Não é por menos que tentativas de destruir o capitalismo, ou causar problemas ao sistema, apenas o deram mais vigor! Cito como exemplo o ataque ao WTC, ao mesmo tempo em que muitos perdiam milhões em recursos, alguns já lucravam com a tragédia, e outros tantos iriam lucrar por meio de guerras causadas por esse evento. Que justificou a ideologia da invasão e expropriação de alguns paises.
_No livro “O Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley é narrado um futuro hipotético dessas relações, onde essa questão foi idealizada, ele se finda sobre uma sociedade de castas em que as pessoas são projetadas geneticamente e doutrinadas psicologicamente, e no final das contas, para garantir a estabilidade e a “harmonia social”, os habitantes vivem alucinados por drogas para não perceberem ou criarem problemas. Até por que a solução para estes poderia ir contra tudo que se instalou naquela sociedade.
_Não muito diferente de hoje, não é mesmo?
obs:
saiu a versão em filme do livro Admirável Mundo Novo (Brave New World) a tempos atrás, e por sinal foi bem feita…